terça-feira, 3 de novembro de 2015

um passo atrás

foi naquele dia em que choveu, depois daquele que fez calor e antes daquele em que minha cama quebrou que eu desisti do que era certo, que optei pelo absurdo.

foi logo depois de ouvir aquela música da cantora que você gosta naquela rádio que nem existe mais que eu decidi liberar o tráfego daquele amor congestionado que formava fila em mim para ser sentido.

foi quando você pareceu puro que eu escolhi interromper meu já estacionado processo de evolução só para poder ter a chance de andar pra trás e lá, de ré, bem naquele resto de passado já gasto, esbarrar em você outra vez.

e foi ali, mesmo sabendo qual seria o fim, que eu quis viver a reprise daquele capítulo em que eu chorei. só pra, antes disso, poder repetir aquela única cena em que você me fez feliz nesse roteiro inédito que todo mundo já viu e eu já sei de cor.

domingo, 5 de julho de 2015

síndrome do membro fantasma

eu li que sai do córtex essa dor que faz parecer que você está aqui mesmo não estando mesmo quando nunca esteve. eu li que sai do córtex mas chega no átrio esquerdo ou direito passa pelo ventrículo e esmaga a minha aorta e me sufoca. e me sufoca. e me sufoca. e os meus braços e as minhas minhas pernas e os dedos não falta nada só sobra a dor fantasma de um você ausente que me foi amputado e ainda pulsa. e pulsa.

e pulsa.

segunda-feira, 15 de junho de 2015

era uma lembrança boa

naquele dia eu quis te pedir pra ficar. um 'espera, espera!'  que se tudo tivesse dado certo deveria ter soado como 'por favor, tenta. tenta ficar mais um pouco'. você foi. foi mesmo. e eu senti muito dentro de mim por você ter sentido tão pouco.

é que depois de tanto cair e me esfolar, de tropeçar e me esconder, de recuar e recuar mais outra vez, eu reconheci na sua risada alta um jeito novo de achar graça na vida.

porque, no fim das contas, eu gostava da sua dúvida de sair ou ficar na cama. eu gostava da sua pose de segurança de banco. eu gostava de como você se defendia atacando. da matemática que fluía leve. do português direito. de como você fazia do difícil fácil e do fácil, impossível. porque, no fim das contas, o que eu gostava, enfim, era de você. 

mas você decidiu mesmo ir e eu fiquei com a vontade do dia seguinte. com a falta daquilo que poderia ter sido. com a lembrança do que não aconteceu. com tudo que nem deu tempo de sentir.