terça-feira, 13 de novembro de 2012

só pra explicar

é o contorno da sua mão, o formato da sua unha sempre certinha. o seu cabelo que está curto e é lindo e cresce e fica bagunçado e mais lindo. é o seu tênis velho, a sua camiseta da banda que ninguém conhece. são as suas camisas xadrez que só combinam com você. o seu dedo no ar enquanto dançano escuro.

é o jeito que você joga a mochila. é como você escreve. é o seu temaki com chá de limão. é o óculos que eu ajudei a escolher. o cheiro que eu sei que é só seu. a levantada de sobrancelha quando toca a música que você gosta. são as minhas roupas que você usou. são meus ciúmes, minhas lágrimas.

é o tempo que eu demorei pra perceber que é você. é muito. é tudo isso que está em mim, que mesmo se tirarem tudo ainda sobra tanto. é por isso.

terça-feira, 9 de outubro de 2012

um livro

a comparação que eu faço é com um livro. saímos da livraria como novos. ao longo da vida acabamos emprestados pra alguns leitores. esse é o percurso que muda tudo. os leitores, enquanto estão com a gente, vão anotando várias coisas nas páginas, deixam marcas de café, de dedos sujos. passam pra frente, de mão em mão. quando somos devolvidos, estamos cheios de marcas.

o livro não é mais o mesmo de antes. o conteúdo ainda está ali, mas as marcas que os outros deixaram também. uns anotaram, uns rasgaram, outros rasgaram mais, queimaram de cigarro e alguns sujaram. e é assim que está agora. um livro que está cada dia mais difícil de ler, quase incompreensível. não que fosse um livro excelente no começo. não, não. foi um livro que esteve aberto e que, infelizmente, sempre encontrou em seu caminho leitores meio analfabetos.

quinta-feira, 12 de julho de 2012

quando você está triste você deve parecer triste

a minha alma problemática quer falar. quer contar das relações caóticas que eu me afundei. quer falar do caos que se instalou em mim, do desconforto constante de existir e de como tudo se tornou tão inadequado na minha própria construção. é assustador se deparar com a honestidade em sua profundidade. não consigo ser feliz e assumo a minha realidade amarga. assim, de cara limpa, não me interesso mais em carregar minha persona social fictícia de amabilidade e alegria.

a questão é que em tempos de total desespero, você precisa se desesperar. você deve parecer triste quando você está triste. tudo é tão traumático, a vida é assim. sempre há algo que te perturba e tira do eixo. perturbadora a vida. ele, sempre ele, perturbou meu cérebro e mudou a forma que tudo veio depois se construiu.

e foi assim. eu me esqueci por completo de como ele é,  mesmo tendo jurado pra mim nunca esquecer. mas a vida se tornou um poço de esquecimento. e tudo vai sempre desaparecendo junto. minhas pernas, braços. sempre sumindo até que chegou o momento em que a lembrança da existência dele chega a ser apenas a falta da minha própria.

é um fardo que não está mais ali, mas pesa no ombro. em determinado momento você se sente seduzido por esse fardo, como se precisasse dele pra algo. eu não consigo entender. remorsos lascinantes, doses cavalares de autocrítica, pedradas no coração. nada funciona ou explica ou soluciona. damn.

segunda-feira, 25 de junho de 2012

sexta-feira, 27 de abril de 2012

sonho

Engraçado, há uns dois anos eu tinha um sonho. Olha...só de lembrar dele agora eu já fiquei envergonhado. Mas, sério, ele era o que me bastava naquela época. Quanta ingenuidade.

Um dia larguei o sonho por aí. Por sorte, ainda não o acharam e nem me devolveram.

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

loucura e dor

doido. muda de calçada, entra na loja aberta, ensaia o diálogo engraçado com o telefone mudo, coloca o fone de ouvido, segue cantando e tocando bateria no ar. recua do abraço, se afasta pra respirar, defende seu ciúme, acredita na sua razão. restaura a dor, revira os próprios entulhos em busca de uma lágrima velha pra chorar de novo o pranto antigo.

pra fugir do que tem, passa a ter mais. o bar, o drink, os amigos, a noite. e tudo junto passa a ser ele. caminha tentando superar. sem palavras, canta. pensa às vezes pra fingir que não pensa sempre. não muda, lamenta. e faz tudo por ele. acha que ama. e deixa lá, pra passar desapercebido. agora quer ser menos pra jamais deixar de ser. doído.

- E aí, vai fazer algo efetivo ou não vai desistir do conforto infantil do platonismo?
- ...
- Quero só ver. Eu quero nêgo chorando porque foi andar de bike e caiu e não porque tá com medinho de andar. A vida é curta demais pra se envenenar todos os dias.
- ...