segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Entre quatro paredes

Ontem à noite eu fiquei por algumas horas rolando na cama tentando dormir. Culpava o meu quarto pela insônia. É que eu me dei conta de que eu odeio meu quarto. Eu odeio as paredes do meu quarto. Na verdade eu percebi que eu odeio todas as paredes do mundo. E se não fosse aquele conforto extremamente viciante que a minha cama me proporcionava, eu teria conseguido reunir forças pra levantar e esmurrar cada uma das paredes até sangrar os dedos. 
Mas,  de repente eu comecei a agradecê-las. Eu vi que eu sou um entediado, e que tudo na minha vida é entediante. O quarto, este computador, as próprias paredes, os móveis, a sala aqui do lado, o apartamento, meu carro, as ruas, os lugares, as pessoas, Belo Horizonte. E as paredes começaram a ficar mais próximas de mim, me entenderam. 
Na verdade eu tinha quase tudo pra achar a minha vida a mais legal de todas. Mas não. A minha vida é banal. Chata. Achatada. Ordinária. E eu sou ainda mais chato, ordinário e banal, ao tentar fugir de tudo isso através da inutilidade daqueles vícios comuns. Me afundo em horas de internet, exercícios de punhetagem, engordadas e emagrecidas, rendições ao consumismo enlouquecedor e orgasmático, entrego-me a pelo menos seis dos sete pecados capitais e completo a receita com poucas horas semanais de sono. 
Esqueço que não bebo, e acabo bebendo e bebendo e me arrependendo, e fazendo besteiras que contradizem a minha busca do amor dos contos de fadas. E tonto, e sujo e disposto a esquecer mais um dia em que tive nojo de mim mesmo, nada mais me resta a não ser voltar para estas quatro paredes que sugam o meu tédio e me propõem como única saída assistir pela 25ª vez aquele episódio de Friends em que a Rachel e o Ross se beijam no Central Perk e, logo em seguida, aquele em que eles brigam e vão para a janela chorar ao som de "With or without you". Choro um pouco com eles e depois olho para o teto buscando os remédios para a minha doença, pra cada uma das minhas inutilidades que me parecem cada vez mais úteis e que enganam por alguns instantes a minha vida sem graça. 
O mesmo tédio que tomou conta da minha vida conseguiu matar uma a uma, cada uma das coisas mais valiosas pra mim. Não quero mais tentar escrever, cansei de contar minha coleção de dvds e ver que pra sempre vão faltar quatro deles, não quero mais recortar pedaços de papéis dobrados para ver o que vai dar quando eu abrir. Sair com amigos não é nada mais que uma tentativa de tentar sair do tédio. Me perco nas festas, bares e boates para onde me carregam e enquanto a música toca alto, eu só consigo pensar que nunca vou ter o talento da Tina Fey - mesmo se passar a usar óculos - e que ainda que eu usasse uma bengala igual à do Dr. House eu não conseguiria ser espirituoso como ele.. 
Tudo ficou fraco. E todas as relações materiais e também as pessoais não conseguem mais se manter de pé. E por isso eu desisti de lutar contra isso que eu batizei de tédio, mesmo que não o seja. Agora ele vai ser uma característica minha, não um defeito que me consome. E tratando ele como parte de mim, eu posso tentar viver e fazer parte do mundo. De novo.  Dentro ou fora das paredes...

13 comentários:

Anônimo disse...

tudo tem remédio. faz como eu, sô. se depila, rs.

Mara Bianchetti disse...

#E eu que nem sabia que você bebia nas horas vagas?#
Quando o tédio passa a nos consumir, nada mais nos resta do que nos entregarmos a ele e fazer valer o momento. Aquela coisa de ver o lado positivo de tudo, sabe? É, eu não sei. Mas vai que você sabe, né? Enfim...

Thiago Andrade disse...

Eu entendo o tédio como uma busca de sentido. Quando nada faz sentido na vida somos embriagados com o tédio, que nos faz perceber onde estão as nossas fraquezas, ausências e pontos indefinidos. Daí, a gente acaba percebendo o quanto a vida é simples e o quanto fazemos questão de embaralhá-la com coisas sem fundamento.

bp studio disse...

Já pensou em publicar um segredo sem se revelar?
Conheça meu blog!
Abraços..

Autor disse...

Ai, mocinho!
Te lendo assim fico preocupado.
Sei que é bom vomitar essas palavras, colocar pra fora tudo q nos incomoda.
Mas temos que agitar essa vida, né?
Quando é que arruma um tempinho pra vir passear em Petrópolis, heim?
Te aguardamos aqui.
Bjo

Ana Clara Otoni disse...

Vazios seguros são infinitamente melhores que os vazios completos. Veja bem: você está sozinho e isso o deixa mal...pq você se sente sozinho. Ok, isso é óbvio. Mas pensa como seria bem pior se estivesse acompanhado e ainda assim se sentisse sozinho? Melhor ficar dentro das quatro paredes sozinho, pensando nas mil coisas que se poderia fazer ou ter alguém aí fazendo as mil coisas?

Monique disse...

É... vc sempre me supreende...

é isso q dá não centrar as idéiais... se refugiar em coisas tolas e vãs, como amigos que nunca valeram apena... rs... vc me entende, né? uahuahuah bjuuuuusss

Monique disse...

É... vc sempre me supreende...

é isso q dá não centrar as idéiais... se refugiar em coisas tolas e vãs, como amigos que nunca valeram apena... rs... vc me entende, né? uahuahuah bjuuuuusss

FOXX disse...

nossa!


deve ser o clima então
bh sempre deprime a gente!!!

carol disse...

Tirou as palavras da minha boca. Sei como é (de menos "exercícios de punhetagem").

Rafael Morello disse...

Querido o difícil é isto mesmo.. esta coisa de ser capaz de desejar tudo, o mais, o além e viver dia após dia em 50 m², entre quatro paredes, nos números da tua ID ou na porra da foto 3 x 4 do teu crachá na empresa. E isto é a finitude humana, a porra da nossa condição. Talvez a salvação seja aceitar isto e, ao invés de esperar o inefável, maravilhar-se com os pequenos milagres quando ocorrerem. e aqui e ali acontecem. Mas só talvez seja isto. O importante é que o que quer que seja isto em você, me emociona e produz belíssimos textos como o deste post. Bj.

Izabela Thaís disse...

Às vezes sinto como se eu estivesse querendo fazer que minha vida fosse pior que já é...

Eu sei bem o que sente. E, quer saber de uma coisa? Este mundo é um sanatório mesmo. Só não sei distinguir quem são os lúcidos e os insanos...

É preciso nos perdermos para, então, nos encontrarmos...

Sabe... O que deprime é a vida banal... Mas, isso não quer dizer que a sua seja...

Laidinha da Costa disse...

queria te dar os parabéns pelo blog
é impressionante como sinto cada uma das palavras que escreves..como descrevem tão bem o que estou a sentir neste momento..