quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Até que o Carnaval termine

Veja bem, já é quase quarta-feira de cinzas. Quer forma melhor de terminar um carnaval opaco do que uma quarta-feira cinzenta? Quando me vi no sábado de manhã, estava dentro de um carro cheio, com apenas um conhecido e outras três pessoas que nunca vi na vida, que juravam que eu ia me divertir muito. Uma caravana carnavalesca. Louvável a intenção de todos eles. Queriam que eu recuperasse aquela válvula propulsora que me trouxe até aqui. Com música, cerveja e beijo na boca. Típico. 
Horas depois, ou em menos de quinze minutos, não reparei, eu estava em um local com ruas de pedras. Eles chamam de "cidades históricas", não é isso? Históricas e memoráveis ali eram apenas as sobras da minha existência. Antiga ali era aquela lembrança amarelada e rasgada que eu carregava da vida que existia lá fora, logo depois daquela janela com moldura azul onde eu fiquei debruçado por boa parte dos meus dias. 
Ali, depois da janela todos se mostravam extremamente felizes. Muita música, muitas risadas. Mas pra mim, parecia tudo mudo. O mundo abaixou o meu volume para que eu pudesse ouvir o meu grito interno. E de repente meu coração ficou rouco de tanto berrar. E aí eu pude escutar de novo as pelo menos vinte e três vezes em que alguém chegou até mim pedindo pra eu me balançar, agitar, cair na folia. "Deixa, ele é assim mesmo. Daqui a pouco ele melhora". Isso eu perdi a conta de quantas vezes ouvi pelas costas.
A sensação de beijar alguém pensando na verdade no que estaria escrito na terceira linha da página 28 de "Admirável mundo novo", de Aldous Huxley, já estava começando a ficar divertida. Se o beijo tivesse durado mais alguns minutos, eu teria me lembrado de pelo menos mais dois trechos daquele parágrafo e ainda teria passado o meu telefone de verdade. Por falar em telefone, quantas vezes neste Carnaval eu digitei o seu número no celular, já que realmente achei que resolveria algo apagar da agenda, pra te dizer algo que eu não fazia idéia do que seria. Por sorte, bebi pouco. Foram incontáveis tapinhas nas costas e sorrisos de lado que eu sabia que queriam dizer "parabéns, sabia que você podia virar essa página". Essas pessoas não entendem que eu sei que eu posso sim, fazer e querer muitas coisas sem você. Eu sei muito bem que se eu tomar um banho quente, eu posso conseguir querer uma única coisa que seja, só uma, sem você. 
Quando eu já estava a ponto de ser confundido com aquelas "namoradeiras" das janelas, me avisaram que estava na hora de ir embora. Mas eu queria ficar ali. Praticamente empalhado, embalsamado. Ver o mundo passar na minha frente, olhar e continuar com a mesma feição. Alheio a tudo, esperando o próximo Carnaval. E me contagiar com aquela necessidade intensa de ser feliz e mostrar pro mundo que se é feliz. Até que o Carnaval termine. 

7 comentários:

FOXX disse...

como expliquei: too much information

Rafael Morello disse...

Saco esta obrigação de ser feliz sempre, dar a volta por cima imediatamente, não desanimar os outros com a própria dor. Pule, beije na boca, ouça axé-music. O que está acontecendo com todo mundo, hein? Querido, mais um belo texto. Bjão

Mara Bianchetti disse...

"...E me contagiar com aquela necessidade intensa de ser feliz e mostrar pro mundo que se é feliz. Até que o Carnaval termine".
Nunca tinha visto o carnaval por esse lado. Ainda assim, esta continua sendo a minha festa preferida. Até que o Carnaval termine e eu possa esperar pelo próximo!

Maísa Capobiango disse...

Acho que vc sabe que o meu olhar sobre o Carnaval é parecido com o seu. E, ao mesmo tempo, sempre lembro de vc quando penso em Carnaval. Talvez pq a magia que a gente encontra na data seja um pouco diferente da de todo mundo. Adorei!

Autor disse...

Mas o carnaval termina e a vida recomeça... O jeito é encarar a vida e buscar a felicidade. Detalhe: ela, quase sempre, está dentro da gente.

Syn (apses) disse...

E eu achando que carnaval era só alegria mesmo... preciso evoluir meu ponto de vista!

Vou te linkar, ok?

Abraços!

Syn (apses) disse...

Ah "ELE", tem presentes pra ti la no meu blog.