domingo, 21 de dezembro de 2008

99% ou 101% - Uma conversa

"É preciso ter tristeza. Tristeza não é ruim. Quase todo mundo só quer escutar musiquinhas alegres, ir dançar em lugares barulhentos, ficar falando o tempo inteiro. Porque eles têm medo da tristeza. Mas não é a tristeza que mata." 
(Fernanda Young - 'A sombra das vossas asas')

Cheguei aos 21, nem firme, nem forte. Mas cheguei. Me formei na faculdade, nem firme, nem forte. Mas me formei. Fora isso, ainda estou na eterna dúvida se torço para Darwin ou Lamarck. Porém, pensando um pouco mais, ainda acho que fico com o segundo. Sabe, tendo sempre a ficar ao lado dos injustiçados - e, hipoteticamente falando, claro, com aqueles que tem as idéias mais divertidas.
São dezessete horas, escrevi um textinho melancólico sobre o fim da primavera (publicado logo abaixo) e...calma, que estou buscando algumas respostas em cantos vazios que já foram vasculhados e vasculhados. Aham, continuo com aquela tendência (ou mania?) chata de procurar o que procurar. Minha avó diria que estou caçando sarna para me coçar. Aliás, interessante essa coisa de colocar ditados e frases batidas na boca das avós. É uma daquelas situações que se encaixa nas categorias de 'verdades absolutas' e 'mentiras acreditáveis'. Pelo que conheço minha avó, ela não diria algo sobre "sarna para se coçar". Mas fica tão mais crível dizer que a frase sai da boca dela e ninguém duvidaria que ela realmente diz isso. 
Sobre o texto da primavera. Não vou ser drasticamente romântico de dizer que sinto um descarrego, um gozo interno, quando escrevo sobre meus sentimentos. Que nada. Não alivia, não relaxa, não me deixa feliz. Muito menos faço para emocionar alguém. Que os que como eu, tem no DNA o gene do sofrimento por amar, se danem. Por isso, para 2009 um dos meus objetivos é saber porque eu ainda continuo escrevendo sobre eles.
No computador, um vídeozinho impróprio para menores de dezoito anos está pausado esperando que eu termine de escrever esse texto. Falar isso aqui não tem problema, tem? Se tiver, elejam mais algumas outras contravensões e me comuniquem. Assim como me comunicaram que era um absurdo eu querer que a Susana Vieira sambasse e mijasse em cima do túmulo do ex-marido dela. 
Me perguntaram enquanto escrevo este post se estou 100%. Quer saber? Acho que estou 99%. Ou melhor, 101%. Gosto do exagerado, mesmo que eu não seja um. 

Transição

E eu que não dava a mínima para as mudanças de estação, me despeço hoje de você, primavera, com um último abraço. Ah donzela! Vais deixar saudade e os contornos de uma tristeza perseverante. Sei que ainda arruma suas malas. No entanto, já comecei a preparar a tua despedida na noite em que chegou. Ensaiei as palavras e agora, na hora da partida, verbalizo tudo aquilo que rascunhei na minha própria mão esquerda.
Olha lá, o verão já vem. Abre de novo tua mala cheia de flores. É que preparei uma lembrança, nada demais. Leva contigo meu sorriso, mas deixa comigo a capacidade de sentir primavera todo dia. Deixa a razão, deixa a paixão e me deixa viver cheio de razão e paixão. Se couber, leva a culpa de ser feliz.
Obrigado por ter vindo; sei que se tudo der certo você volta na próxima temporada. É que eu não sei se vou ter tempo de te receber da próxima vez. Sabe, vou me ocupar em ainda te esquecer. Mas acene, não deixe de acenar mais uma vez. Vai ser sempre bom lembrar de como você, primavera, me fez um dia sentir todas as estações juntas dentro de mim.  Vá pela e leve a sombra.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

A última

Mais um copo de café quase frio. Mais um cigarro inacabado, o último. Companheiros amargos para essas noites com horas que têm gosto mais forte que absinto. Ah, todo fim de noite é a mesma coisa. Pela janela, a lua que já foi minha amiga joga esses raios claros na minha cara, mostrando que ela ainda brilha. Enquanto eu? Eu que já fui seu admirador enamorado, confidente fiel, amigo irresponsável, perdi o tesão de tentar brilhar. Lua, fica sozinha nesse céu.
Como é que esse relógio não anda? Eu disfarço o meu próprio tempo.  Hoje foram três pautas, cinco copos de café pela metade, doze Ice Kiss pretas e duas de melancia, três rascunhos de bilhetes pela metade, cinco desenhos na última folha do caderno, quatro respostas mal dadas, uma fome que mais parecia uma dízima periódica e uma paixão que é o mal que mais me assola.
Já confundi essa segunda com aquela sexta e agora eu ouço grupo do bar tocar a minha favorita. Amigo garçom, não precisa trazer a próxima, a última. Já me vou. Já devia ter ido há tempos. Ah meu amigo garçom, eu perdi a minha identidade. Não aquela de papel. A que eu perdi não adianta procurar, nem tirar segunda via. Nem São Longuinho resolve. Amigo garçom, eu vou embora porque meu tempo avisou. É como aquele poeta já disse, meu amigo... "Não que eu estivesse triste, só não sentia mais nada".

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Os buracos do meu queijo

Como é mesmo aquela história do queijo? Quanto mais queijo, mais buracos. Quanto mais buracos, menos queijo. Então, quanto mais queijo, menos queijo. É esse o paralelo que queria fazer: o da minha falta de queijo. Ou do excesso de buracos vazios. Culpo os tais alísios de fim do ano. Os mesmos que trazem o clima de Natal que até o ano passado eu celebrava. Mas é que os tais alísios trazem à tona também as fraquezas, os medos e as angústias responsáveis pelos nós da garganta, mais atados que os de marinheiro. Cada um desses conflitos internos tem um vazio próprio que cresce de forma assustadora quando a gente se remói, o que acaba deixando as ruas lotadas de buracos-negros ambulantes. Um bando de nadas. 
O tempo que fiquei afastado do Fale com Ele serviu para me fechar na caverna de Platão. Sem hipocrisia, joguei na minha própria cara todos os meus maiores podres. Tudo, é claro, impulsionado pelo fim de uma paixão desesperada. Um daqueles pontapés iniciais que a gente precisa dar, ou levar na bunda, para repensar atitudes ou a falta delas. Claro, sem a viagem de achar que eu parei minha vida pra isso. Tudo aconteceu ao mesmo tempo em que a faculdade terminava e, junto com o trabalho, consumia meus últimos gritos de força. 
Pelas sombras deu pra enxergar e entender tanta coisa, tanta gente. Pessoas autodestrutivas e outras que simplesmente querem ser felizes, mesmo que tenham que passar por cima de si próprias para isso. É a tal construção do ideal de felicidade. Se acha que só vai ser feliz assim, eu fico da minha caverna olhando. Quando que alguém pode tentar condenar alguma busca pela tal felicidade? 
Quando dá tempo, eu dou risada de mim mesmo. Enjôo de mim. Me bato e tento entender como algo pôde mexer tanto. Mas eu só queria voltar a escrever aqui quando tudo, tudo tivesse passado. Não passou tudo. Acho que nunca meu ascendente em Peixes esteve tão aflorado. É sentimento descendo com suor e lágrima. Para quem acreditar no tal do inferno astral, estou no ápice, no cume. À beira dos 21, eu sigo os zilhões de conselhos que me dizem para aprender com tropeções. Mas só encontro uns solavancos pelo caminho que abrem mais fendas no queijo, aumentam o vazio. Ainda assim, por enquanto, suspendam as flores brancas do velório.