segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Arde

E as congratulações e as felicitações e as exaltações e também as exclamações. Nada fazia sentido ali. E a música, o telão, o troféu, as danças. Nada combinava. Onde estava o ritmo tranquilo que tinha ouvido à tarde? E repetia cada passo na cabeça, porque gostava da dorzinha boa e do frio na barriga, de sentir saudade daquilo que ainda considerava seu. E lembrava cada cheiro, cada gesto, cada toque.
Vinha a lágrima enquanto todos riam. Disfarçava o choro, virava o rosto e olhava para a churrasqueira. Aquele fogo parecia mágico e fazia tudo parecer mágica. Vinham as palavras de tudo bem, meu bem, tudo vai ficar bem.
Foi embora sem que ninguém visse, sem ser notado, saiu anônimo e preferiu assim. Dali foi repetir os passos de verdade. E assistia, de olho aberto, sem fechar, os momentos que viveu naqueles dias. Os cenários eram os mesmos, os atores é que não estavam. E mesmo com o teatro vazio, o perfume estava ali.
E com cem passos apressados, quis fugir de algo que estava queimando. Corria, mas o fogo não cessava, o perfume não saía. Aprendeu a conviver com o incômodo e o cheiro. Percebeu então, que a dor não precisava mais ficar ali. Só devia permanecer o sentimento que parecia brasa, ardia como o fogo, aquele da churrasqueira. Mágico tal qual.
Desistiu de tentar entender qualquer coisa que fosse. Percebeu que é o ser humano, e ser humano é difícil, que ser humano dói. Não queria mais explicação, não queria pedido de perdão. Abriu sua janela à espera de um aceno de adeus que não chegou, do tchau eminente que ainda não tinha sido dito, do 'até logo' ausente que ainda não tinha ouvido. E com cada momento ainda vivo e respirando dentro de si, seguiu andando, sem encontrar o próprio passo, até onde a noite permitiu.

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Queria ser um Power Ranger

E dói, uma dor que eu não sabia que dava pra doer. E cada vez que paro de me remoer por alguns instantes, sinto que acabei de lutar contra os meus piores monstros. E pior, sem a minha fantasia de Power Ranger e, por isso, acabo machucado. E com mais dor. Aquela dor que vai da nuca até a unha do dedinho do pé, e que aparece sem que você tenha necessariamente que chutar a quina da cama ou bater a cabeça na parede.
Dói tanto que eu não tenho vergonha de falar que dói, até pro que faz doer. E exponho essa dor, mesmo sabendo de tanta dor mais que ela vai gerar, como cutucar a merda da vaca faz feder. Grito a dor mesmo sabendo que tem gente que ri do sofrimento alheio, e gente que se fortalece com a dor dos outros.
E eu percebo que dói mais porque eu experimentei a rara sensação de não-dor, e vi que foi por isso, e só por isso, que a vida faz sentido.Tem doído porque é dor de ser humano. Dor rodeada de más intenções camufladas, de ironias, de covardia. O tempo todo sinto estar preso em um quarto de brincadeiras de mau gosto, tentando encontrar a porta de saída, ao menos uma janela de fuga, vá lá. E quando eu penso que encontrei, os meus monstros voltam, riem da minha cara e me obrigam a arranjar uma força que eu não tenho para enfrentá-los novamente. Procuro minhas armas, mas onde penso que podia encontrar forças, não acho mais.
É uma dor minha, só minha. Que dói e faz sangrar em silêncio. Queria saber escrever sentimentos, queria entender o ser humano. Mas eu não sei. Não sei escrever, não sei entender, não sei ignorar, não sei não ligar, não sei sofrer e muito menos sei conviver com a dor. E morro de vergonha de admitir e demonstrar que pareço um bebê ainda aprendendo a andar, e que é obrigado a voltar a engatinhar.
E quando a dor chegasse, queria me transformar em Power Ranger. Me transformar e vestir uma máscara para poder ser mais filho da puta, mais canalha, mais ignorante e mandar o mundo se foder. Fantasiado eu poderia ser blasé, pensar em mim primeiro, machucar, ter coragem de magoar alguém de propósito e trair confiança depositada. Ia conseguir viver o momento sem me importar com o resto, trocar o "eu" por qualquer pessoa, sumir sem dar satisfação, enganar o mundo e cagar pra isso, porque afinal, eu vou estar feliz e ponto.
Como Power Ranger eu não ia fazer drama, ia comer nas horas certas, não ia precisar fingir o que eu quero e o que eu não quero jamais. Ia poder lutar contra os crimes. Meus próprios crimes. E quando eu cansasse de ser forte, eu tiraria a roupa e voltava a expôr minhas fraquezas, me fazer de morto, de bonzinho, de injustiçado. Aí ia sentir a dor de novo, até que ela quisesse sair pulando, rasgando o meu peito. Quando isso acontecesse, então era só "morfar" e ficar forte de novo.
Um Power Ranger não tem ciúme, não liga de ser evitado, de ser debochado e abandonado, de ter dívidas. Quando eu era pequeno nunca me deixavam ser o Ranger vermelho. Hoje eu quero ser qualquer um. Só pra poder lutar e crescer sem dor.

domingo, 2 de novembro de 2008

Ignorância emotiva

Coloca no som uma fita velha com Caetano Veloso cantando "La Barca". 
- Quer que eu abra um pouco a janela? Lá fora venta gelado, mas talvez você precise de um pouco de ar puro. Espere! Aguarde mais um pouco que já desamarro suas mãos. A comida já vem, pedi por telefone. Creio que acertei no pedido, é o que você mais gosta. Você me disse uma vez. Quer ver? Está anotado aqui, logo abaixo do que você mais detesta. Espera, essa é a lista do que faremos juntos a partir de hoje. Aqui está: alimentos preferidos. Hummm...olha só! Sente o Caetano!
Se você não gostar do tempero, eu posso modificar. Come. Pronto? Agora preciso amordaçar sua boca, tudo bem? Guarde os ouvidos para mim. Onde está seu celular? Coloca o meu nome no visor do seu celular? Vou apagar as luzes. As chaves do quarto escuro estão aqui, bem em cima da mesa. Mas é aqui que você vai ficar por um bom tempo. Em silêncio total e me esperando. 
Eu ouvi você falando "compromisso"? Posso chamar o advogado? O juiz de paz? O padre, rabino, pastor, pai-de-santo? Vou colocar as algemas antes que você mude de idéia.
Escuta, vou colocar Marisa Monte. Você tem esse cd? "O que me importa ver você tão triste. Se triste fui e você nem ligou". Adoro Marisa, ela diz tanta coisa que a gente queria dizer. Diva, não é assim que a chamam? Apesar de às vezes eu preferir a Duncan. A Zélia, sabe? Ei, por falar nisso, com quem foi que você esteve ontem?
Não me olhe com essa cara. Eu não vou te matar. É claro, eu estou sentindo a morte. Essa vontade de morte é o único sinal de que ainda existe vida em mim, que me tira dessa apatia insistente, constante e quase fatal. Não preocupa! Eu, enquanto eu, sou demasiadamente covarde para me matar assim, pra sempre. E sou mais covarde ainda para te matar assim, definitivamente. 
Vamos jogar cartas. Tome! Blefe! Você sempre blefando, sempre blefando. Eu sou muito mais eu. Eu não blefo. Eu não grito. Eu não erro. Eu não peco. Eu...Ei, estou sendo uma pessoa má, não? Então de que e por que ainda ri? 
Do seu medo, da sua insegurança. Já te falaram que você possui uma enorme ignorância emotiva?