sábado, 25 de outubro de 2008

Ali Jaz

- Boa tarde gente, boa tarde! Dona Denise, como vai? E a família? Seu Tião! Teve festa aqui hoje?  Deixa eu ir ali correndo falar com o Euclides que eu tô atrasadíssima. 

Desculpa a demora, hoje quase que não deu pra vir. Teve a apresentação de balé da Isadora na escola...você tinha que ter visto. Um primor! Depois levei as crianças pra comer pizza e comemorar. Elas mereciam, estão sendo uns amores. Só depois que as deixei em casa e passei na padaria pra comprar um maço de cigarros é que eu pude vir para cá. É, voltei a fumar. Tem sido tudo muito difícil, e você sabe, o cigarro... Eu sei que você odeia, não precisa falar nada. Não, as crianças ainda não viram. Eu vou tentar parar, é só este maço, e juro... Aí acabo. Você se importa? Vou acender um. 
Hum...(solta a fumaça...) Vou sentar. Pelo visto alguém anda limpando aqui direitinho. Com quem mais você anda se encontrando? Reparou que meu cabelo mudou? É a mesma tinta da Malu Mader. As pessoas tão falando que eu fiquei mais nova. Acho que fiquei com um tom de mulher executiva, concorda? 
Hum...(solta a fumaça...) Trouxe essas flores hoje para enfeitar, mas acho que da próxima vez não terei dinheiro. Sabe como é, a crise da bolsa americana atingiu as flores. Vou arranjar uma nova forma de decoração, algo reciclável, feito em casa. Que achas? 
Hum...(solta a fumaça...) Desculpa, foi no seu rosto? Essa semana tem doído fundo a sua falta. Parece que espetaram meu coração como se fosse uma picanha e colocaram para queimar. Gostou da comparação? Ah Euclides! (dá uma bolsada)...você não precisava ter ido desse jeito. Não achei digno. Eu sempre estive do seu lado, oras. Oito anos não são oito dias. Juntos seria muito mais fácil acabar com aquela palhaçada toda. Mas não, você quis lutar sozinho. Herói dos filhos, né? Hahaha...Mas a Graça, da mercearia, já tinha me dito uma vez: as pessoas são mutáveis, estranhas, às vezes canalhas, às vezes problemáticas... 
Hum...(solta a fumaça...). Hum...(solta a fumaça...). Já vai dar seis horas. Toma essas flores. Minha rotina de trabalho começa agora, né. Se não aparecerem sete clientes essa noite, não vai dar pra pagar o patins novo do Euclides Júnior. Que tá enorme, você precisa ver. 
Oh, tão fechando o cemitério. Não tem vela para acender hoje. Ou eram velas, ou flores. Vou pegar uma aqui da Quitéria, ela não vai se importar. Tchau querido, amanhã eu volto. Ah, vou ver se dá pra fazer o bolo de cenoura. Acho que tem cenoura lá em casa. 

3 comentários:

Karina disse...

Mamãe é sempre uma boa conselheira

confissoesaesmo disse...

Adoro essas crônicas, hahaha

Thais Goetz disse...

Então, muito bom!

"Que achas?"

Eu tava comendo espaguete, numa lanchonete suja do centro(pleunasmo), e a fazedora do espaguete grita pra caixa: "Não chores, querida."

Fiquei boquiaberta!

Não chores, não chores!

quem é que fala assim?