quarta-feira, 6 de agosto de 2008

Prazeres da goiabada

Quinto dia útil do mês. Tempo frio e chuvoso. Carla vai ao supermercado.

CARLA - Mesmo com o meu salário na conta, tem coisas que são muito luxo, não cabem no orçamento. Essa goiabada aqui, por exemplo, eu não poderia comprar nunca. Não dá, não dá!

CARLA tira um abridor de latas do bolso, abre a embalagem da goiabada e começa a comer.

CARLA - São coisas que a gente tem que rever na vida. Prioridades! É assim que elas se chamam. Ou você compra o grosso, o arroz e o feijão, o papel higiênico, um biscoitinho pra agradar as crianças, ou se dedica aos prazeres da vida.

CARLA encosta o carrinho em um canto do supermercado, tira uma toalha xadrez do outro bolso e se senta no chão. Pega uma lata de Fanta Uva que trazia na bolsa e começa a beber.

CARLA - Essa goiabada é realmente um manjar dos deuses. Mas não dá. Se eu tiro R$5 para comprar, não dá pra levar o queijo. E o queijo é importante, tem cálcio. Na minha idade já temos que começar a nos preocupar com osteoporose. Então leite e queijo são fundamentais. Anota aí.

O SEGURANÇA do supermercado se aproxima de CARLA.

CARLA - Veja você. Aposto que também não tem dinheiro pra comprar uma mísera goiabada no fim do mês. Não tem! Aposto que não compra Tang, compra apresuntado no lugar de presunto e muita carne moída.

CARLA pega a última fatia de goiabada e começa a se levantar.

SEGURANÇA – Eu preciso que a senhora me acompanhe.

CARLA – Mas por quê? Será que não é permitido mais comer uma simples goiabada no supermercado que eu frequento há oito anos? Será que eu não posso mais sentir um único prazer na minha vida. Por quantos anos mais eu terei que saciar a minha vontade, aumentar a minha glicose, apenas com as jujubas que eu roubo dos meus filhos?

SEGURANÇA – As câmeras de vigilância filmaram a senhora colocando alguns produtos dentro da bolsa.

Surpresa, CARLA pega a tampa de metal da goiabada, gira no ar e rebate, acertando o esôfago do segurança. Em seguida, derruba o resto de Fanta Uva em sua roupa. Dobra a toalha xadrez e amarra em seu rosto como se fosse uma burca muçulmana.

CARLA – Tudo isso por causa de alguns alimentos? Eu tenho dinheiro, muito dinheiro! Só não queria gastar sacolinhas de plástico deste muquifo!

CARLA abandona a bolsa com seis latas de atum, dois pacotes de açúcar refinado, dezoito caixas de palito de dente e sai correndo, derrubando todas as prateleiras. Antes de chegar na porta do supermercado, ela pega uma outra lata de goiabada e coloca dentro da calcinha.

CARLA – Este prazer ninguém me tira!

Um carro com cinco crianças dentro a esperava do lado de fora. Ela entra no veículo e some no meio da neblina.
O segurança acorda e encontra um bilhete preso ao zíper de sua calça:
"Eu notei as suas segundas intenções ao me olhar. Podemos resolver essa questão no meu apartamento. Não me procure, eu te procuro. Rasgue esse bilhete e jogue os quadradinhos de papel no terceiro bueiro da rua da Praça dos Pombos. Esse é o sinal que me fará perceber o quanto você me quer. Ass: A moça da Goiabada"
Um outro segurança vai até ele e pergunta o que aconteceu.
SEGURANÇA 2 - O que houve? Você está bem?
SEGURANÇA - Tá tudo bem. Mas vai ficar melhor ainda.
Disfarçadamente, o SEGURANÇA rasga o bilhete em pequenos quadrados e o coloca no bolso. Sem que o colega pudesse perceber, ele pega três latas de goiabada e coloca no bolso do seu paletó.
SEGURANÇA - Vou até a rua da Praça dos Pombos.

4 comentários:

CellaSing disse...

Você está me surpreendendo, ein nandinho! Parabéns!

confissoesaesmo disse...

Gente, eu ri muito aqui.
Adorei.
Eu já disse que quero escrever igual a vc quando crescer? rs...

CellaSing disse...

Gozado... alguém tinha prometido post novo...

Thais Goetz disse...

Gozado...

o que aconteceu com o seu blog enquanto eu tive preguiça de ler?