terça-feira, 26 de agosto de 2008

Ônibus: fugindo do engarrafamento

E têm sido assim minhas últimas semanas. De um dia pro outro se infiltrou em mim uma repulsa enorme, um asco, uma fobia, de ficar dentro de um ônibus por mais de trinta minutos. É uma coisa tão injusta eu ter que perder horas preciosas do meu dia na volta pra casa depois do trabalho, um percurso que, sei lá, poderia ser feito normalmente em 25 minutos.
Nessas situações o ônibus, mesmo que esteja vazio, fica pequeno demais pra mim. Por pouco, muito pouco, não me torno mais um daqueles barraqueiros desagradáveis que começam a gritar pro motorista acelerar "porque eu tô afim de chegar em casa". Pior ainda, por um triz não puxo conversa com a pessoa do lado para comentar sobre o caótico trânsito. E você sabe, essa é uma das cinco piores coisas que pode acontecer com pega ônibus. As outras quatro?
- Ter alguém comendo alguma coisa, qualquer coisa, ao seu lado;
- Um ônibus vazio, com vários lugares vagos, e alguma senhora resolver sentar justo ao seu lado;
- Alguém te empurrar desesperadamente para pegar um banco vazio;
- Você acabar cochilando e acordar no susto batendo a cabeça no encosto/barra do banco ou na janela, e ainda por cima babando. A sensação de que todo mundo viu isso acontecendo é indescritível;
(Prefiro não comentar situações envolvendo gente fedorenta, vômitos e outras secreções)
Enfim, com tanta raiva do trânsito, tenho adiado ao máximo a minha volta para casa todos os dias. São muitos minutos, talvez horas, de caminhadas, incríveis momentos relaxantes em bancos de praça, visitas à igrejas de várias religiões (abraço pro pessoal da 39ª Triângular do Evangelho do Hemisfério Norte, valeu pela força! Pastor Edmilson, o dinheiro vai essa semana!) e surpreendentes cachorros-quentes de rua.
Tem ainda a amizade com a senhora que vende artesanato naquela rua paralela que eu descobri semana passada, uma simpatia. Me deu um cordãozinho com um pingente de madeira talhada. Achei um gesto super simpático dela. Legal, né? Só não usei ainda porque não identifiquei exatamente o que é o formato da peça. Não sei, é algo fálico, para ser comedido na palavra. A moça da padaria, outra amizade que criei, disse que talvez possa ser uma carranca. Ou um pinto. Ela não tem certeza...
Tem ainda um papagaio super divertido, que eu não vejo, mas fala comigo atrás do muro de uma casa enorme. Poxa, ele é tão inteligente...a cada dia aprende uma palavra nova. Mas eu tava até comentando com o senhor da casa de artigos de umbanda: às vezes eu desconfio que ele talvez não seja um papagaio. Principalmente depois que ele cantou "Chupa que é de uva" pra mim hoje à tarde. E olha que eu já tinha até procurado saber o que papagaio gosta de comer pra levar pra ele amanhã. Vou tentar olhar por cima do muro...
Enfim, nada mais satisfatório. Você conhece melhor a sua cidade, faz algumas horas de exercício físico leve, relaxa, pensa na vida e ainda chega em casa às 21h! Ok, chegar em casa às 21h, quando você saiu do trabalho às 17h pode não ser uma grande vantagem, mas só de pegar ruas livres no trajeto de retorno eu já me sinto tão mais livre. E ainda me livro de virar um chato de ônibus. Pode ter certeza, é menos uma pessoa te cutucando pra falar que "nossa, esse trânsito tá impossível, né?!".
NEWS: Achei que conseguiria resistir à moda do Twitter, mas, ok, já me rendi. Já está ali no topo da coluna do lado direito do blog. Expostos ali, os últimos dois mini-posts. Em "Siga-me no Twitter", todo o resto. Durante todo o dia, postagens sobre... bem, sobre o quê eu ainda não sei. Talvez sobre o que está acontecendo, o que estou fazendo, com quem estou brigando, quem estou comendo (isso bem raramente, claro)...

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

Dos filhos deste solo

Festival de talentos da escola. Alunos de todas as classes fazem a fila para cantar o Hino Nacional.
BRASILIANO - Uau! Uau! Maior legal! Maior legal! Você viu?
MARCOS - Vi o quê?
BRASILIANO - O Orkut!!! Agora dá pra ficar verde e amarelo!! O Brasil sempre vence!
MARCOS - Eu vi isso, só gente esquisita tá usando.
BRASILIANO - Qualé? Você não é patriota?
MARCOS - Não vou deixar meu Orkut barango daquele jeito, né?
BRASILIANO - Ah, já eu, visto a camisa do meu país!!! Ô Isquindô! Pra frente Brasil! Salve a Seleção!
MARCOS - Bom, eu acho que eu vou ao banheiro antes que comecem a ....
BRASILIANO - Não! Espera! Você sabe cantar o Hino Nacional? Sabe???
MARCOS - Sei, sei sim.
BRASILIANO - Todos os versos?? Sabe o que é o lábaro que ostentas estrelado?? O verde-louro desta flâmula? E o que é o impávido colosso?
MARCOS - Cara, eu realmente preciso ir ao banheiro...
BRASILIANO - Você tem noção do quanto foi difícil em pouco mais de 500 anos de história construirmos um grande local como esse para se viver? Sabe o quanto cada presidente abriu mão de tanta coisa para podermos levar essa vida que levamos hoje? Percebe o quanto o nosso país é vitorioso, como nós somos abençoados? Vivemos num país sem terremoto, furacão, guerras!
MARCOS - Ok. Tá certo, mas fala mais baixo...
BRASILIANO - E as nossas lindas mulheres! Samba! Caipirinha! Feijoada! Carnaval! Futebol! Ronaldiiinho! Como você pode desprezar tudo isso? Como?
A bandinha da escola começa a tocar o hino. Uma bailarina faz um número de dança com elementos de ginástica olímpica com a bandeira nacional amarrada na cintura.
BRASILIANO - E as nossas belezas naturais! Corcovado! Amazônia! As praias, belas praias!
MARCOS - Cara, pára de gritar, por favor.
BRASILIANO sobe no palco e interrompe o número musical da bailarina!
BRASILIANO - Vocês todos! TODOS VOCÊS! Hipócritas! Submissos ao sistema! Ao capitalismo! Todos com Nike no pé! Todos com iPod no ouvido! Valorizem essa terra, valorizem essa terra! De que adianta vestir a camisa da seleção, se por dentro vocês são todos filhos de Bush! Filhos de Bush!
BRASILIANO rasga a camisa e revela uma tatuagem do presidente Lula na barriga. Um grito ainda mais alto se ouve no recinto.
BAILARINA - AAAAAAAAAAH! Você....acabou com tudo! Me arruinou! Brasileiro tem que se ferrar mesmo!
BAILARINA vai até a mesa de som, coloca o cd com o tema Brasileirinho, inicia um ritual de dança, dá um duplo twist carpado e sufoca o pescoço de BRASILIANO com a bandeira do Brasil.
Sozinha, vai até à mesa de som novamente, coloca o Hino Nacional para tocar e reinicia a sua coreografia do zero.
A apresentação termina. Um minuto de silêncio. A BAILARINA em prantos. E, finalmente, a platéia vibra. BAILARINA abre um sorriso, desata o nó da bandeira que matou BRASILIANO, envolve em seu corpo e faz uma reverência ao público que a aplaudia de pé.
DIRETORA - E vamos agradecer a participação da nossa querida BAILARINA. Daqui a pouco temos um musical com o grupo da 8ª série, GAROTOS DO BRONX com a música "Minha linda Nova Iorque"!

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

Prazeres da goiabada

Quinto dia útil do mês. Tempo frio e chuvoso. Carla vai ao supermercado.

CARLA - Mesmo com o meu salário na conta, tem coisas que são muito luxo, não cabem no orçamento. Essa goiabada aqui, por exemplo, eu não poderia comprar nunca. Não dá, não dá!

CARLA tira um abridor de latas do bolso, abre a embalagem da goiabada e começa a comer.

CARLA - São coisas que a gente tem que rever na vida. Prioridades! É assim que elas se chamam. Ou você compra o grosso, o arroz e o feijão, o papel higiênico, um biscoitinho pra agradar as crianças, ou se dedica aos prazeres da vida.

CARLA encosta o carrinho em um canto do supermercado, tira uma toalha xadrez do outro bolso e se senta no chão. Pega uma lata de Fanta Uva que trazia na bolsa e começa a beber.

CARLA - Essa goiabada é realmente um manjar dos deuses. Mas não dá. Se eu tiro R$5 para comprar, não dá pra levar o queijo. E o queijo é importante, tem cálcio. Na minha idade já temos que começar a nos preocupar com osteoporose. Então leite e queijo são fundamentais. Anota aí.

O SEGURANÇA do supermercado se aproxima de CARLA.

CARLA - Veja você. Aposto que também não tem dinheiro pra comprar uma mísera goiabada no fim do mês. Não tem! Aposto que não compra Tang, compra apresuntado no lugar de presunto e muita carne moída.

CARLA pega a última fatia de goiabada e começa a se levantar.

SEGURANÇA – Eu preciso que a senhora me acompanhe.

CARLA – Mas por quê? Será que não é permitido mais comer uma simples goiabada no supermercado que eu frequento há oito anos? Será que eu não posso mais sentir um único prazer na minha vida. Por quantos anos mais eu terei que saciar a minha vontade, aumentar a minha glicose, apenas com as jujubas que eu roubo dos meus filhos?

SEGURANÇA – As câmeras de vigilância filmaram a senhora colocando alguns produtos dentro da bolsa.

Surpresa, CARLA pega a tampa de metal da goiabada, gira no ar e rebate, acertando o esôfago do segurança. Em seguida, derruba o resto de Fanta Uva em sua roupa. Dobra a toalha xadrez e amarra em seu rosto como se fosse uma burca muçulmana.

CARLA – Tudo isso por causa de alguns alimentos? Eu tenho dinheiro, muito dinheiro! Só não queria gastar sacolinhas de plástico deste muquifo!

CARLA abandona a bolsa com seis latas de atum, dois pacotes de açúcar refinado, dezoito caixas de palito de dente e sai correndo, derrubando todas as prateleiras. Antes de chegar na porta do supermercado, ela pega uma outra lata de goiabada e coloca dentro da calcinha.

CARLA – Este prazer ninguém me tira!

Um carro com cinco crianças dentro a esperava do lado de fora. Ela entra no veículo e some no meio da neblina.
O segurança acorda e encontra um bilhete preso ao zíper de sua calça:
"Eu notei as suas segundas intenções ao me olhar. Podemos resolver essa questão no meu apartamento. Não me procure, eu te procuro. Rasgue esse bilhete e jogue os quadradinhos de papel no terceiro bueiro da rua da Praça dos Pombos. Esse é o sinal que me fará perceber o quanto você me quer. Ass: A moça da Goiabada"
Um outro segurança vai até ele e pergunta o que aconteceu.
SEGURANÇA 2 - O que houve? Você está bem?
SEGURANÇA - Tá tudo bem. Mas vai ficar melhor ainda.
Disfarçadamente, o SEGURANÇA rasga o bilhete em pequenos quadrados e o coloca no bolso. Sem que o colega pudesse perceber, ele pega três latas de goiabada e coloca no bolso do seu paletó.
SEGURANÇA - Vou até a rua da Praça dos Pombos.