domingo, 27 de julho de 2008

Querido amor,

Vim pensando nesta carta durante todo o caminho. Apesar da senhora ao meu lado estar descascando várias mexericas, separando os gomos e colocando-os em uma sacola preta, eu consegui me concentrar. São os benefícios de ficar preso em plena sexta-feira num engarrafamento na avenida Paulista. Se não houver ninguém com alguma conversa interessante no banco atrás de você, é uma ótima oportunidade para se refletir.
Enrolo para começar porque não é fácil. Da última vez em que conversamos você disse que tudo ficaria bem. Eu, como sempre, acreditei. E mais uma vez não ficou tudo bem. Agora, ao invés de ir para casa depois do trabalho, estou indo ao hospital te visitar. Você não se importava quando eu dizia "te cuida". Era para se cuidar mesmo. Tomar cuidado com as coisas que as pessoas te dão. Você sabe como te visam e te invejam graças à sua posição. Posição, beleza, grana. Tudo isso atrai os olhares mais maldosos.
Quando a minha amiga Carla me convenceu a te envenenar com chocolates rechados de raticida, eu não imaginei que a situação ficaria assim eternamente, não imaginava um coma. Hahahaha! É cada uma! Que engraçado...Bem, tudo que eu queria era poder ficar mais tempo ao seu lado, ser responsável por você. Eu queria que quando você melhorasse, ficasse sabendo que eu fiquei todo esse tempo junto de ti. Aí viveríamos felizes para sempre.
Bom, pelo visto deu mais certo do que eu esperava, rsrs. Estou indo ao seu encontro agora. Você não pode me ver, me ouvir, falar comigo. Mas eu estou até levando balões para enfeitar o seu leito. E também fotos! Muitas fotos nossas para enfeitar aquela parede sem graça. O hospital inteiro vai conhecer o nosso amor. Tive que deixar os nomes dos seus antigos amores na portaria do andar. Não poderão entrar nunca. Afinal, você não pode receber visitas de pessoas que te tragam más lembranças, lembrem o passado. Pode fazer mal...
Infelizmente você também não vai ler essa carta. Segundo os médicos, não pelos próximos dois anos. Vou colocá-la onde você nunca poderá encontrar. Com ela minha mente está mais aliviada. Não concordo quando dizem que entrei em estado de desequilíbro. Pensam que eu fiquei louco por você estar doente. As pessoas não sabem mesmo o que é amar, não é? Talvez só nos dois saibamos.
Meu amor, sabe o que seria belíssimo? Eu comer o mesmo bombom que te dei e te deixou assim. Seríamos Romeu e Julieta da vida real. Um em coma ao lado do outro. Podem até escrever um livro da nossa vida, transformar nossa paixão em uma peça de teatro com o José Mayer me interpretando. Decidido. Essa carta é uma despedida do mundo. Porque agora eu me entrego completamente ao meu sentimento. Não suporto te ter de forma incompleta. Quero entrar na mesma sintonia que você.
Restam dois bombons. Um para mim, que comerei na porta do hospital. Quando cair ao chão, já estarei ao seu lado. O outro bombom vai para a senhora das mexericas, que com certeza irá aceitá-lo. Tem cara de que aceita tudo. Ah, faça-me o favor! Não se deve sujar o ar alheio com esse cheiro irritante e forte de mexerica. Ah, se existissem no mundo mais pessoas racionais como eu...
Nos vemos em breve e serei seu para sempre.
PS: Não repara a letra. De vez em quando o ônibus anda e dá uma chacoalhada, acabou ficando tudo meio tremido. Mas como você sempre diz, o mais importante é o conteúdo, né?

3 comentários:

confissoesaesmo disse...

Cara, simplesmente ADOREI!
Ainda bem que te descobri, hehehehe
Fez minha segunda ficar mais divertida.

Aquele abraço.

CellaSing disse...

Nossa... de onde tirou isso???? Profundo, ein....

Thais Goetz disse...

Gente

não tô entendendo nada!