terça-feira, 29 de julho de 2008

A terapia

PÉRICLES está sentado há pelo menos duas horas na sala de espera da clínica psiquiátrica indicada pela sua amiga Carla.
PÉRICLES: (pensando) Só a Carla mesmo pra me fazer matar serviço em plena terça-feira. Ainda bem que minha chefe acreditou na desculpa da avó morta. Imagina o que ela pensaria se eu contasse que estou vindo num consultório psiquiátrico. Ainda mais hoje, que era o meu dia de dar o dinheiro do pão de queijo pro escritório todo.

Por falar nisso, como demora essa consulta. Aquela gorda que entrou antes de mim toda suada e apertando uma bolinha massageadora com certeza tem muito mais pra desabafar com a doutora do que eu. Mesmo que aqui não seja uma clínica de lipoaspiração ela vai tirar um super peso das costas...hahahaha... nossa, eu estou cada vez mais engraçado...hahaha...peso das costas.. Ai ai... só eu mesmo. Mas bem feito, quem está pagando R$75 a hora é ela.

Ainda bem que tem essa televisão ligada aqui na sala de espera. Gente, e eu super acreditava que esse rapaz, Rafael Ilha ia se recuperar. Preso de novo. Sabe como isso se chama? Necessidade de atenção. Tem uma prima minha que faz psicologia e me disse que...

SECRETÁRIA - Pode entrar. A doutora Rosana já está aguardando.
PÉRICLES - Ahn? Já? Muito obrigado.
Na sala da doutora:
PÉRICLES - Prazer, doutora. Péricles.
DOUTORA - Desculpe pelo atraso, a paciente anterior demorou um pouco para desabafar.
PÉRICLES - Sem problemas doutora. Acho que não vamos demorar quase nada.
DOUTORA - Qual é o seu problema?
PÉRICLES - Sou o amigo da Carla, aquela que vem aqui três vezes por semana. Sabe?
DOUTORA - A prostituta bipolar?
PÉRICLES - Não, a manicure com mania de perseguição.
DOUTORA - Ah tá, a Carla do picuim loiro com raiz preta.
PÉRICLES - Essa mesma. A Carla, doutora, hahaha, vê se pode, hahahaha, disse que eu tinha que vir aqui só porque eu estou com uns problemas amorosos.
DOUTORA - Mais um homem que é casado e tá gostando do colega da mesa ao lado no trabalho? Isso se chama boiolice. Não costuma acontecer na sua idade, mas pode ser considerado normal.
PÉRICLES - Não doutora. Não é isso! Na verdade...
DOUTORA - Dê um porre nele e parta para o ataque. Se funcionar, vocês vão fazer sexo loucamente. Talvez ele não reaja muito bem porque estará alcoolizado, mas tudo vai dar certo. Se não funcionar, você será demitido. Posso ajudar em mais algo? São R$140 reais e pode pagar pra Sybelle, a secretária. A máquina do Visa tá quebrada, mas pode deixar um cheque com nome, telefone e RG atrás. Se for sem fundo, a gente te localiza. Se pensar em sustar o cheque, eu tenho meus contatos e você será um cara morto.
PÉRICLES - Eu tô apaixonado por uma foto!
DOUTORA - Como é? Deita aí rapaz...
PÉRICLES - Doutora, depois que eu vi o Orkut dela, eu me apaixonei. Eram tantos depoimentos falando que ela era gente boa, um amor de menina. A foto do perfil é tão delicada, ela está em frente a um espelho e se autofotografa com um celular Motorola V3. Mas o álbum tá bloqueado. Não deu pra ver outras fotos. Mas até a senhora se apaixonaria, garanto. Tem um computador com internet aqui? Eu mostro pra senhora.
A porta do banheiro do consultório se abre sozinha. Uma poça de sangue começa a escorrer. O corpo da verdadeira doutora aparece dentro do banheiro com várias marcas de garfadas e um croissant na boca que a impediu de respirar.
PÉRICLES - Mas o quê? Como?
FALSA DOUTORA - Ignora aquilo. Continue falando da sua amada foto. Você tem MSN?
PÉRICLES nota a presença de uma bolinha massageadora na mão da FALSA DOUTORA.
PÉRICLES - A senhora é a paciente gorda!
FALSA DOUTORA, agora PACIENTE GORDA - E você é um homem morto.
A PACIENTE GORDA tira um novo garfo da gaveta e enfia repetidas vezes no intestino de PÉRICLES. Para evitar gritos, ela coloca uma mexerica inteira em sua boca. Com apenas uma mão, ela abre um pacote de Ruffles e começa a comer. Ao mesmo tempo, o corpo de PÉRICLES é levado para o banheiro e acomodado em cima do da verdadeira psiquiatra. A PACIENTE GORDA marca um X vermelho em uma lista, acessa o Orkut, responde um scrap de uma amiga, coloca um novo jaleco, ainda não sujo de sangue, e volta a se sentar na mesa.
PACIENTE GORDA - Sybelle querida, pode mandar entrar o próximo paciente. Hoje o dia está uma loucura, não?
PROSTITUTA BIPOLAR entra no consultório.
PS: Post nº 100

domingo, 27 de julho de 2008

Querido amor,

Vim pensando nesta carta durante todo o caminho. Apesar da senhora ao meu lado estar descascando várias mexericas, separando os gomos e colocando-os em uma sacola preta, eu consegui me concentrar. São os benefícios de ficar preso em plena sexta-feira num engarrafamento na avenida Paulista. Se não houver ninguém com alguma conversa interessante no banco atrás de você, é uma ótima oportunidade para se refletir.
Enrolo para começar porque não é fácil. Da última vez em que conversamos você disse que tudo ficaria bem. Eu, como sempre, acreditei. E mais uma vez não ficou tudo bem. Agora, ao invés de ir para casa depois do trabalho, estou indo ao hospital te visitar. Você não se importava quando eu dizia "te cuida". Era para se cuidar mesmo. Tomar cuidado com as coisas que as pessoas te dão. Você sabe como te visam e te invejam graças à sua posição. Posição, beleza, grana. Tudo isso atrai os olhares mais maldosos.
Quando a minha amiga Carla me convenceu a te envenenar com chocolates rechados de raticida, eu não imaginei que a situação ficaria assim eternamente, não imaginava um coma. Hahahaha! É cada uma! Que engraçado...Bem, tudo que eu queria era poder ficar mais tempo ao seu lado, ser responsável por você. Eu queria que quando você melhorasse, ficasse sabendo que eu fiquei todo esse tempo junto de ti. Aí viveríamos felizes para sempre.
Bom, pelo visto deu mais certo do que eu esperava, rsrs. Estou indo ao seu encontro agora. Você não pode me ver, me ouvir, falar comigo. Mas eu estou até levando balões para enfeitar o seu leito. E também fotos! Muitas fotos nossas para enfeitar aquela parede sem graça. O hospital inteiro vai conhecer o nosso amor. Tive que deixar os nomes dos seus antigos amores na portaria do andar. Não poderão entrar nunca. Afinal, você não pode receber visitas de pessoas que te tragam más lembranças, lembrem o passado. Pode fazer mal...
Infelizmente você também não vai ler essa carta. Segundo os médicos, não pelos próximos dois anos. Vou colocá-la onde você nunca poderá encontrar. Com ela minha mente está mais aliviada. Não concordo quando dizem que entrei em estado de desequilíbro. Pensam que eu fiquei louco por você estar doente. As pessoas não sabem mesmo o que é amar, não é? Talvez só nos dois saibamos.
Meu amor, sabe o que seria belíssimo? Eu comer o mesmo bombom que te dei e te deixou assim. Seríamos Romeu e Julieta da vida real. Um em coma ao lado do outro. Podem até escrever um livro da nossa vida, transformar nossa paixão em uma peça de teatro com o José Mayer me interpretando. Decidido. Essa carta é uma despedida do mundo. Porque agora eu me entrego completamente ao meu sentimento. Não suporto te ter de forma incompleta. Quero entrar na mesma sintonia que você.
Restam dois bombons. Um para mim, que comerei na porta do hospital. Quando cair ao chão, já estarei ao seu lado. O outro bombom vai para a senhora das mexericas, que com certeza irá aceitá-lo. Tem cara de que aceita tudo. Ah, faça-me o favor! Não se deve sujar o ar alheio com esse cheiro irritante e forte de mexerica. Ah, se existissem no mundo mais pessoas racionais como eu...
Nos vemos em breve e serei seu para sempre.
PS: Não repara a letra. De vez em quando o ônibus anda e dá uma chacoalhada, acabou ficando tudo meio tremido. Mas como você sempre diz, o mais importante é o conteúdo, né?

sábado, 19 de julho de 2008

Bravo, bravíssimo!

Essa semana quando assisti na televisão uma entrevista de Dolores em sua festa de aniversário de 101 anos, imaginei que nos próximos meses ela nos deixaria. Já aparentava um pouco de fraqueza e rouquidão, apesar de tentar mostrar a todo custo que estava bem e forte. Mas a estadia da maior atriz de comédia do Brasil durou apenas mais alguns dias, bem menos do que poderia imaginar.
Dolores deixou a Terra sob muitos aplausos. Levou junto com ela a irreverência, o bom humor, a falta de memória e os peitos de fora. Deixou aqui uma história de mais de um século de vida e experiências que transcendem qualquer coisa que se limite apenas à vida ou morte.
Bravo Dolores, bravíssimo!

sábado, 12 de julho de 2008

Pílulas de Heath Ledger

Intrigante pensar em como realmente pode ser solitária a vida em um quarto de hotel. Viajar sozinho tem dessas mesmo. Apenas dois dias aqui e eu já queria simular uma cena à la Heath Ledger e ser encontrado com pílulas e frascos de medicamentos em volta de mim, enquanto eu fico deitado só de cueca no chão, ao lado de uma poça de sangue. Seria interessante também ter uma garrafa de vinho vazia e uma taça quebrada ao meu lado. Mais legal ainda seria se demorasse semanas para eu ser encontrado.
É claro que esses pensamentos vão embora quando eu ligo a televisão e vejo o Jô Soares entrevistando um personal friend. Se realmente existem pessoas que precisam contratar um amigo para ir ao cinema, eu não estou numa situação tão crítica assim. Até porque, é ótimo ir ao cinema sozinho, essas pessoas apenas não descobriram.

Mas não deixa de ser chato pensar que depois de um dia inteiro de trabalho, entrevistas, uma passeada em algumas lojas, você vai voltar para um lugar que não é a sua casa, dividindo paredes com pessoas que você não faz idéia de quem são e por que estão ali. Pessoas que podem ser muito diferentes, ou pior, muito iguais a você! Inclusive pode ser que tenha vários Heath Ledgers no mesmo andar do hotel que você está. E para elas o Jô não vai ser uma boa companhia.
Você que está viajando pelo mundo, de quarto em quarto de hotel, guarde bem as suas pílulas e medicamentos. Se o Jô realmente não te animar numa vazia noite num quarto com o ar gelado , pense que você tem um frigobar à sua disposição, só para você!. E meu caro amigo, isso é privilégio para poucos. Melhor ainda se o seu quarto tiver TV a cabo e você puder assistir House antes de dormir. As pílulas ficam só para ele.
PS: Se eu não voltar a escrever nos próximos cinco dias, espere mais duas semanas para criar aquele suspense. Aí sim, peça para a camareira do hotel me procurar. É sempre a camareira que encontra o defunto.

quarta-feira, 9 de julho de 2008

O balanço

Não era minha intenção deixar o blog tanto tempo sem atualização. Mas a transição junho/julho foi tão complexa que a última coisa que dava vontade era vir escrever aqui. Por favor, não me venha com aquele papo de que escrever é uma técnica para desabafar e que eu deveria ter despejado minhas lamúrias no teclado. Não cola mais.
Mas é interessante, há um mês eu não tinha tanta alergia (é, eu disse alergia mesmo, e não alegria) como eu tenho agora, tinha 20 dvds a menos e não era viciado em assistir Heroes e House. Sim, creio que estas foram as mudanças mais significativas em pouco mais de 20 dias sem atualizações. Mas a vida não está parada! Incrivelmente não está. Tem uma viagem interestadual saindo do forno, muito trabalho sendo feito e muitas horas de sono sendo perdidas.
Apareceu também uma vontade incrível de investir em sonhos impossíveis. Nas horas diárias de viagens em ônibus, me vem à cabeça a minha imagem apresentando um programa de televisão com auditório e fazendo campanhas publicitárias para quais eu sou contratado graças ao meu sucesso como animador de auditório.
Dentro do ônibus também me dá uma vontade incrível de jogar na Mega Sena. Mas uma vontade diferente, daquelas que você sente que vai ganhar de verdade. O estranho é que essas visões do futuro só acontecem quando eu estou sentado sem ninguém ao meu lado. Elas duram pouco, admito. Sempre vem alguma senhora sentar ao meu lado, mesmo com vários bancos vazios. Eu me sinto podado, sei lá. Aí os sonhos-acordados ficam para o outro dia.
E é legal sonhar assim. Pelo menos esses pensamentos são você quem controla.