terça-feira, 26 de setembro de 2017

naquele dia

naquele dia em que a mendiga me puxou pelo braço 
me agarrou pelo pulso
me amarrou uma pulseira 
e me disse vai ser feliz

eu não imaginava
que era pra subir rio de janeiro
dobrar a esquina
e olhar carro a carro

eu não sabia
que não era pra eu acenar deliberadamente
e tentar entrar num carro que não era
o seu carro

eu não entendia
que não adiantava ensaiar
que no final das contas
eu ia gaguejar feito um bobo
de qualquer jeito

naquele dia em que que a mendiga me puxou pelo braço
e me disse vai ser feliz

sem imaginar.
sem saber.
sem entender.
eu fui.

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

quimera

de quantas metades você é feito
meu meio menino meio homem meio guri inteiro paixão
quanto tanto de cada tudo existe em você
vinte por cento casmurro-turrão
cinquenta por cento galhardo
sessenta vírgula trinta e dois por cento de suspiros (inspiro e expiro e respiro)
e um sessenta e quatro avos de fascínio
sua conta não fecha
mas encaixa
sem prova dos nove
me ganha por aproximação
chega perto vai
e não sai
minha quimera menos mitológica
nada mítica
quase mística
vontade minha
aspiração que eu nunca tanto quis
até perceber que
sim.



é só o que eu quis.


domingo, 3 de setembro de 2017

agradeço o convite

hoje não vai dar pra ir.
me desculpa, amiga. é que ontem ele ligou e falou que seria amanhã.
o batizado do seu filho fica pra próxima.
agradeço o convite.
vó, a senhora entende
o seu aniversário de 97 anos tem todo ano
mas não é todo dia que ele insinua que amanhã pode ser
dear mick jagger, does your show really have to be neste dia?
é que he sent me a message saying he wants to see me on thursday and since tuesday I can't do anything
caro doutor, será que não dá pra adiar a cirurgia?
afinal, meu apêndice não está tão inflamado. 
de cadeira de rodas e com morfina eu consigo ir até onde ele marcar comigo.
e ele vai marcar.
dessa vez ele vai.
ele disse que vai.

[confusão escrita em algum dia de 2015 ou 2016 enquanto eu esperava ele aparecer e marcar algo]

terça-feira, 3 de novembro de 2015

um passo atrás

foi naquele dia em que choveu, depois daquele que fez calor e antes daquele em que minha cama quebrou que eu desisti do que era certo, que optei pelo absurdo.

foi logo depois de ouvir aquela música da cantora que você gosta naquela rádio que nem existe mais que eu decidi liberar o tráfego daquele amor congestionado que formava fila em mim para ser sentido.

foi quando você pareceu puro que eu escolhi interromper meu já estacionado processo de evolução só para poder ter a chance de andar pra trás e lá, de ré, bem naquele resto de passado já gasto, esbarrar em você outra vez.

e foi ali, mesmo sabendo qual seria o fim, que eu quis viver a reprise daquele capítulo em que eu chorei. só pra, antes disso, poder repetir aquela única cena em que você me fez feliz nesse roteiro inédito que todo mundo já viu e eu já sei de cor.

domingo, 5 de julho de 2015

síndrome do membro fantasma

eu li que sai do córtex essa dor que faz parecer que você está aqui mesmo não estando mesmo quando nunca esteve. eu li que sai do córtex mas chega no átrio esquerdo ou direito passa pelo ventrículo e esmaga a minha aorta e me sufoca. e me sufoca. e me sufoca. e os meus braços e as minhas minhas pernas e os dedos não falta nada só sobra a dor fantasma de um você ausente que me foi amputado e ainda pulsa. e pulsa.

e pulsa.

segunda-feira, 15 de junho de 2015

era uma lembrança boa

naquele dia eu quis te pedir pra ficar. um 'espera, espera!'  que se tudo tivesse dado certo deveria ter soado como 'por favor, tenta. tenta ficar mais um pouco'. você foi. foi mesmo. e eu senti muito dentro de mim por você ter sentido tão pouco.

é que depois de tanto cair e me esfolar, de tropeçar e me esconder, de recuar e recuar mais outra vez, eu reconheci na sua risada alta um jeito novo de achar graça na vida.

porque, no fim das contas, eu gostava da sua dúvida de sair ou ficar na cama. eu gostava da sua pose de segurança de banco. eu gostava de como você se defendia atacando. da matemática que fluía leve. do português direito. de como você fazia do difícil fácil e do fácil, impossível. porque, no fim das contas, o que eu gostava, enfim, era de você. 

mas você decidiu mesmo ir e eu fiquei com a vontade do dia seguinte. com a falta daquilo que poderia ter sido. com a lembrança do que não aconteceu. com tudo que nem deu tempo de sentir. 

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

espera em bh


eu te espero
como quem espera a linha 2004 passar e me levar pra savassi
mas aí eu lembro que o 2004 nem existe mais
mas eu continuo te esperando
vai que uma hora
passa
e a espera
passa