domingo, 14 de dezembro de 2014

passagens

quando eu estava na primeira série eu me mudei de cidade. ao chegar ao novo colégio houve uma situação de humilhação ao novato provocada pela tia lourdes, a professora, que te conto em outra oportunidade. o fato é que na sala nova eu ofereci, eu dei, a minha caneta de oito cores para um menino que eu queria muito que fosse meu amigo. deu certo e viramos bons amigos.

ainda na infância, ainda na cidade nova, eu ganhei um cavaleiro do zodíaco original, um seiya de sagitário com uma bela armadura dourada. era o meu brinquedo favorito. um dia, um vizinho, o gabriel, que não era um bom amigo como meu outro amigo da caneta colorida, pegou o meu seiya e jogou no telhado da casa ao lado cujo dono estava viajando. por duas semanas o meu seiya ficou lá. quando o vizinho voltou e finalmente me devolveu meu brinquedo, ele estava com a cara deformada pelo calor e a armadura estava preta. mas superamos isso e nossa relação persistiu até que o gabriel o roubou de mim. para sempre.

essas coisas e mais a morte da tagarela (a minha cachorra que foi arremessada contra um muro por um cachorro maior), o fato de eu ter estudado um ano em escola pública e ter sido muito fácil e, assim, por isso, eu ter sido homenageado na quadra como melhor aluno do ano, eu ter morado em três cidades e não ter criado vínculos afetivos fortes com ninguém por anos porque sabia que ia embora, o meu patins ter sido rosa com detalhes em bonina e aquela vez que meu tio me perguntou se eu preferia uma namoradinha ou computador bem veloz.


agora você já pode pensar em culpados com mais propriedade. 

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

espera em bh


eu te espero
como quem espera a linha 2004 passar e me levar pra savassi
mas aí eu lembro que o 2004 nem existe mais
mas eu continuo te esperando
vai que uma hora
passa
e a espera
passa

terça-feira, 23 de julho de 2013

eu só queria que você soubesse

que não tem dado pra dormir. e que a insônia também não chega em paz. eu queria que você soubesse que, puta merda, de repente a gente não se falou mais. não se olhou mais. e isso me deu muito medo. porque eu sempre vivi uma vida em que as pessoas normalmente partiram, me deixaram. e, sério, isso nunca foi fácil. e se fosse assim com você ia ser uma dor do caralho.

ia ser legal se você soubesse que eu vi isso tudo nascer. a paixão, eu digo. eu a vi surgir. foi como nos dias em que eu fico bêbado. eu tomo o primeiro copo e o segundo. e vejo as coisas mudando. e tomo o terceiro, mas quando eu vejo, no quarto, já foi. e foi.

acho que você ia gostar de saber que nos últimos cinco meses, esses desde o carnaval, todas as canções cantaram essa história. todos os filmes contaram essa relação. todos os livros e textos descreveram o que eu acho que é isso.

eu queria que você soubesse que eu te acho um egoísta. um insensível. um imbecil que, sem ter noção, frustou aquele resto de expectativa de que, um dia poderia dar certo, ela, a vida. e que, ainda assim, é em você que eu penso. é pra você que eu volto.

e que eu tô bêbado e chorando agora e te achando o cara mais incrível do mundo. de novo. e que eu vou dormir e amanhã, quando acordar rindo e sóbrio, você ainda vai ser o cara mais incrível do mundo da minha vida.

eu só queria que você soubesse que não é nada. dor de estômago, fome, sono, brigas, saudades, vontade, tesão, tristeza, vontade de chorar, de te beijar, de querer você. eu amo você. não é nada. mesmo.


quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

o depois

e então, às 5h da manhã, quietinho, em silêncio, mesmo consciente de tudo, por um instante eu desejei que fosse recíproco. e chorei um pouquinho...

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

last night


eu peguei mais um copo de vodca com energético. não tenho certeza se era o terceiro ou o quarto da noite. bem, o quinto. eram umas 2h45. tocava uma música legal. uma música que eu não conhecia mas que eu realmente estava achando muito legal. ele estava na minha frente e, claro, a cantava com sofreguidão, do jeito mais lindo que alguém pode cantar uma canção.

e eu fechei os olhos. também não sei precisar por quanto tempo. é que eu jurei que não ia fazer isso naquela noite. eu não ia pensar naquela noite.  era uma noite em que eu estava bem. é que ele me faz bem. e o problema é que toda vez que ele me faz bem, eu quero que ele saiba. e toda vez que ele me faz sorrir. e toda vez que por causa dele eu choro. toda vez eu quero que ele saiba que tudo que eu sinto é pra ele. é por ele.

de olhos fechados, sem que eu pudesse notar e sofrer qualquer reação, eu queria que ele soubesse ali que ele me salvou. que eu não aguentava mais pensar na mesma pessoa. mas que ele veio.

mas a música legal acabou. e começou a tocar los hermanos. ele sorriu. eu não sabia se sorria, se cantava, se chorava. los hermanos faz isso, eu acho. eu cantei. só cantei. e, mais uma vez, guardei a vontade de que ele soubesse que 'meu melhor amigo, eu sinto uma falta absurda de você. eu tenho ciúmes de você. eu tô sem rumo e perdido em como lidar com tudo isso. que todo dia é um exercício de apertar coração pra ele diminuir e você não se assustar com o tamanho do que eu sinto. e que, caralho, é só por você que eu estou aqui nessa puta noite chata que só tocou uma música que eu gostei.'.

mas a noite continuou. e depois acabou. na metade do caminho pra casa eu fui me odiando e pensando em como sou um covarde. na outra metade? bem, na outra metade eu fui rindo de mim mesmo e dos meus mesmos exageros de sempre. no meu travesseiro eu ensaiei de novo mais uma possibilidade de diálogo com ele. aquele em que eu vou voltar em outubro de 2009 pra explicar que foi ali que ele mudou a forma como eu enxergaria a vida dali em diante. mas por enquanto... foi só mais um ensaio. o terceiro ou o quarto da noite. bem, o quinto.

terça-feira, 13 de novembro de 2012

só pra explicar

é o contorno da sua mão, o formato da sua unha sempre certinha. o seu cabelo que está curto e é lindo e cresce e fica bagunçado e mais lindo. é o seu tênis velho, a sua camiseta da banda que ninguém conhece. são as suas camisas xadrez que só combinam com você. o seu dedo no ar enquanto dançano escuro.

é o jeito que você joga a mochila. é como você escreve. é o seu temaki com chá de limão. é o óculos que eu ajudei a escolher. o cheiro que eu sei que é só seu. a levantada de sobrancelha quando toca a música que você gosta. são as minhas roupas que você usou. são meus ciúmes, minhas lágrimas.

é o tempo que eu demorei pra perceber que é você. é muito. é tudo isso que está em mim, que mesmo se tirarem tudo ainda sobra tanto. é por isso.

terça-feira, 9 de outubro de 2012

um livro

a comparação que eu faço é com um livro. saímos da livraria como novos. ao longo da vida acabamos emprestados pra alguns leitores. esse é o percurso que muda tudo. os leitores, enquanto estão com a gente, vão anotando várias coisas nas páginas, deixam marcas de café, de dedos sujos. passam pra frente, de mão em mão. quando somos devolvidos, estamos cheios de marcas.

o livro não é mais o mesmo de antes. o conteúdo ainda está ali, mas as marcas que os outros deixaram também. uns anotaram, uns rasgaram, outros rasgaram mais, queimaram de cigarro e alguns sujaram. e é assim que está agora. um livro que está cada dia mais difícil de ler, quase incompreensível. não que fosse um livro excelente no começo. não, não. foi um livro que esteve aberto e que, infelizmente, sempre encontrou em seu caminho leitores meio analfabetos.