Ontem à noite eu fiquei por algumas horas rolando na cama tentando dormir. Culpava o meu quarto pela insônia. É que eu me dei conta de que eu odeio meu quarto. Eu odeio as paredes do meu quarto. Na verdade eu percebi que eu odeio todas as paredes do mundo. E se não fosse aquele conforto extremamente viciante que a minha cama me proporcionava, eu teria conseguido reunir forças pra levantar e esmurrar cada uma das paredes até sangrar os dedos.
Mas, de repente eu comecei a agradecê-las. Eu vi que eu sou um entediado, e que tudo na minha vida é entediante. O quarto, este computador, as próprias paredes, os móveis, a sala aqui do lado, o apartamento, meu carro, as ruas, os lugares, as pessoas, Belo Horizonte. E as paredes começaram a ficar mais próximas de mim, me entenderam.
Na verdade eu tinha quase tudo pra achar a minha vida a mais legal de todas. Mas não. A minha vida é banal. Chata. Achatada. Ordinária. E eu sou ainda mais chato, ordinário e banal, ao tentar fugir de tudo isso através da inutilidade daqueles vícios comuns. Me afundo em horas de internet, exercícios de punhetagem, engordadas e emagrecidas, rendições ao consumismo enlouquecedor e orgasmático, entrego-me a pelo menos seis dos sete pecados capitais e completo a receita com poucas horas semanais de sono.
Esqueço que não bebo, e acabo bebendo e bebendo e me arrependendo, e fazendo besteiras que contradizem a minha busca do amor dos contos de fadas. E tonto, e sujo e disposto a esquecer mais um dia em que tive nojo de mim mesmo, nada mais me resta a não ser voltar para estas quatro paredes que sugam o meu tédio e me propõem como única saída assistir pela 25ª vez aquele episódio de Friends em que a Rachel e o Ross se beijam no Central Perk e, logo em seguida, aquele em que eles brigam e vão para a janela chorar ao som de "With or without you". Choro um pouco com eles e depois olho para o teto buscando os remédios para a minha doença, pra cada uma das minhas inutilidades que me parecem cada vez mais úteis e que enganam por alguns instantes a minha vida sem graça.
O mesmo tédio que tomou conta da minha vida conseguiu matar uma a uma, cada uma das coisas mais valiosas pra mim. Não quero mais tentar escrever, cansei de contar minha coleção de dvds e ver que pra sempre vão faltar quatro deles, não quero mais recortar pedaços de papéis dobrados para ver o que vai dar quando eu abrir. Sair com amigos não é nada mais que uma tentativa de tentar sair do tédio. Me perco nas festas, bares e boates para onde me carregam e enquanto a música toca alto, eu só consigo pensar que nunca vou ter o talento da Tina Fey - mesmo se passar a usar óculos - e que ainda que eu usasse uma bengala igual à do Dr. House eu não conseguiria ser espirituoso como ele..
Tudo ficou fraco. E todas as relações materiais e também as pessoais não conseguem mais se manter de pé. E por isso eu desisti de lutar contra isso que eu batizei de tédio, mesmo que não o seja. Agora ele vai ser uma característica minha, não um defeito que me consome. E tratando ele como parte de mim, eu posso tentar viver e fazer parte do mundo. De novo. Dentro ou fora das paredes...