sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

moema

a pessoa que eu mais admiro, disparado, é uma mulher chamada moema simões que me envia, desde 1999, um e-mail semanal com a programação da agenda lírica de petrópolis  ainda que eu não abra os e-mails da moema desde 2000, eu gosto de saber que eles estarão ali toda quinta-feira.

moema já deve ser mãe. quiçá avó. eu prefiro pensar que moema já é avó porque lá em 1999 eu já a imaginava como uma senhora de 42 anos em frente a um computador criando a newsletter da lírica de petrópolis. agora, moema já tem, certamente, um neto de três anos que leva o nome do avô, pai do marido da filha dela.

moema para mim é aquela senhora que também ajuda o padre na sacristia na missa de domingo e dança batendo palma de forma lenta e espaçada, num ritmo próprio, sem seguir exatamente as batidas da música que está tocando.

é bom abrir meu hotmail e encontrar moema. assim como não abro os e-mails, não os deleto. estão lá, entre as propagandas do peixe urbano, do chico rei e da americanas formando uma linha do tempo. uma linha do meu envelhecimento. dos cabelos brancos de moema. do neto com nome do avô, pai do marido da filha dela. das traições de seu marido. do tempo em que as pessoas ainda usavam hotmail. e da persistência de moema para que todo mundo saiba tudo sobre a agenda lírica de petrópolis. 



segunda-feira, 23 de outubro de 2017

datilografia

abre aspas
mais vinte minutos
até nove e meia
só até dez e quarenta
onze e meia eu levanto
deita de lado
não assim
de lado
isso
fecha aspas

tome nota
tessa
páris
o sonho do livro
o canto do videogame
o golden
ponto

parágrafo
apaixone-se por alguém que faz
você
aos quase 30
ter centenas de primeiras vezes
mesmo quando você decidiu
que a anterior
era a última.
ponto.


abre parênteses
você
eu
e só
fecha parênteses


terça-feira, 26 de setembro de 2017

naquele dia

naquele dia em que a mendiga me puxou pelo braço 
me agarrou pelo pulso
me amarrou uma pulseira 
e me disse vai ser feliz

eu não imaginava
que era pra subir rio de janeiro
dobrar a esquina
e olhar carro a carro

eu não sabia
que não era pra eu acenar deliberadamente
e tentar entrar num carro que não era
o seu carro

eu não entendia
que não adiantava ensaiar
que no final das contas
eu ia gaguejar feito um bobo
de qualquer jeito

naquele dia em que que a mendiga me puxou pelo braço
e me disse vai ser feliz

sem imaginar.
sem saber.
sem entender.
eu fui.

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

quimera

de quantas metades você é feito
meu meio menino meio homem meio guri inteiro paixão
quanto tanto de cada tudo existe em você
vinte por cento casmurro-turrão
cinquenta por cento galhardo
sessenta vírgula trinta e dois por cento de suspiros (inspiro e expiro e respiro)
e um sessenta e quatro avos de fascínio
sua conta não fecha
mas encaixa
sem prova dos nove
me ganha por aproximação
chega perto vai
e não sai
minha quimera menos mitológica
nada mítica
quase mística
vontade minha
aspiração que eu nunca tanto quis
até perceber que
sim.



é só o que eu quis.


domingo, 3 de setembro de 2017

agradeço o convite

hoje não vai dar pra ir.
me desculpa, amiga. é que ontem ele ligou e falou que seria amanhã.
o batizado do seu filho fica pra próxima.
agradeço o convite.
vó, a senhora entende
o seu aniversário de 97 anos tem todo ano
mas não é todo dia que ele insinua que amanhã pode ser
dear mick jagger, does your show really have to be neste dia?
é que he sent me a message saying he wants to see me on thursday and since tuesday I can't do anything
caro doutor, será que não dá pra adiar a cirurgia?
afinal, meu apêndice não está tão inflamado. 
de cadeira de rodas e com morfina eu consigo ir até onde ele marcar comigo.
e ele vai marcar.
dessa vez ele vai.
ele disse que vai.

[confusão escrita em algum dia de 2015 ou 2016 enquanto eu esperava ele aparecer e marcar algo]

terça-feira, 3 de novembro de 2015

um passo atrás

foi naquele dia em que choveu, depois daquele que fez calor e antes daquele em que minha cama quebrou que eu desisti do que era certo, que optei pelo absurdo.

foi logo depois de ouvir aquela música da cantora que você gosta naquela rádio que nem existe mais que eu decidi liberar o tráfego daquele amor congestionado que formava fila em mim para ser sentido.

foi quando você pareceu puro que eu escolhi interromper meu já estacionado processo de evolução só para poder ter a chance de andar pra trás e lá, de ré, bem naquele resto de passado já gasto, esbarrar em você outra vez.

e foi ali, mesmo sabendo qual seria o fim, que eu quis viver a reprise daquele capítulo em que eu chorei. só pra, antes disso, poder repetir aquela única cena em que você me fez feliz nesse roteiro inédito que todo mundo já viu e eu já sei de cor.

domingo, 5 de julho de 2015

síndrome do membro fantasma

eu li que sai do córtex essa dor que faz parecer que você está aqui mesmo não estando mesmo quando nunca esteve. eu li que sai do córtex mas chega no átrio esquerdo ou direito passa pelo ventrículo e esmaga a minha aorta e me sufoca. e me sufoca. e me sufoca. e os meus braços e as minhas minhas pernas e os dedos não falta nada só sobra a dor fantasma de um você ausente que me foi amputado e ainda pulsa. e pulsa.

e pulsa.